quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ilhas ao Alto

É um facto que as ilhas de antigamente - várias habitações com entrada conjunta, assim ao jeito de carruagens de comboio no mesmo apeadeiro, como se sabe, mudaram de perspectiva. Agora, são ilhas ao alto, deixando em estado quase obsoleto as tradicionais ilhas horizontais, aquelas dos "lixos" comuns, do passeio comum, do obrigatório "olá" e, não menos importante, do ouvir-se tudo desde que o ouvido estivesse encostado à parede. O quê?! Agora não é preciso, porque se ouve bem melhor?!

Bom, porventura, com o facto de já não se passar à porta de entrada dos vizinhos, terão pensado muitos, as coscuvilhices reduziriam substancialmente, principalmente por falta de argumentos visíveis para trocar, como se de cromos se tratasse. Mas, enganamo-nos todos. As conversas deixaram de ser à janela uns dos outros para passarem a ser à porta do prédio de todos, como se houvesse uma espécie de reunião de condomínio com acta mas sem agenda, ou melhor, com agenda sempre aberta a novos capítulos.

Claro que esta mudança toponímica das ilhas levou a que as informações alheias ficassem mais retalhadas, principalmente por já não se viver "para sempre" na mesma rua, por sermos autênticos nómadas distritais, ou seja, uns imigrantes, outros emigrantes.

Mas o que mais me apetece realçar é que, nesta nova forma de habitar, além de se perderem velhos e positivos hábitos, tais como pedir sal emprestado ou ter alguém que socorresse ao primeiro gemido, perdeu-se a identificação, ou seja, todos podem falar de nós - e nós dos outros - mas sem se saber verdadeiramente quem são ou o que fazem. Estamos na era da coscuvilhice por suposição, aquela que não deixa de ter "pano para mangas" mas que carece de "documentação" visível, a tal do: "- Eu vi com os meus próprios olhos", sim, os tais que a "terra há-de comer".

São os tempos, estas modernices de ter que aprender a usar a Internet para se estar devidamente informado, devidamente documentado. É que, bem vistas as coisas, sabe-se mais do vizinho no "Google" do que na soleira da porta do prédio, o que faz entrar em desespero, principalmente quem não tem "banda larga".

Francisco Moreira

4 comentários:

paulofski disse...

Este assunto já teve pano para mangas lá no gabinete e aqui vai comentário ao jeito de post:

Eu que cresci num bairro de casas pegadinhas umas às outras, brincava na rua e convivia com os meus vizinhos, sentia os cheiros e ouvia os sons dos quintais, da entreajuda porta-a-porta às conversas de pátio e janela, e tinha conta aberta na mercearia da Dona Emilinha. Eu nunca me habituei a viver num prédio de 10 andares. De baixo muita coisa vem. Reclamo do vizinho de baixo que faz de mim fumeiro do seu cigarro. Noutros dias dispenso a plenos ouvidos os gritos esganiçados da vizinha da em frente, ou as marteladas na parede tipo código morse que alguém, algures, por descargo de consciência traduz em ritmos musicais fora de moda. Onde está agora o “ó vizinha, tem um raminho de salsa?!” ou o “ó vizinho não me poderia fazer um favor?!”. Para além dos administradores de condomínio e os donos dos cãezinhos que conspurcam as zonas verdes e as partes comuns do prédio, não conheço mais ninguém. E vizinhos não me faltam! Mas foi através da banda larga e destes catalisadores de interacção que são os blogues que conheci uma simpática vizinha do meu bairro. A agitação da vida actual e o individualismo instalado na nossa sociedade, geraram um sentimento de isolamento e indiferença em relação às pessoas que vivem ao nosso lado mais perto de nós. Eu ainda não me habituei a viver tão longe do chão, sem ter uma porta para a rua.

Abraço.

FM disse...

Olha, "prontos" - erro propositado, assino por "debaixo" - mais um propositado. Tal como se dizia lá na minha rua... sem prédios.
Abraço, Paulofski.

Natacha disse...

... e ainda somos todos culpados até que porque nunca se prova o contrário...

beijoka

FM disse...

(sorrisos)
Que posso eu dizer, além disso, Natacha?!
Beijos com Carinho.

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